Transtorno Bipolar

Cento e cinquenta anos antes de Jesus Cristo, Areteu da Capadócia escrevia: “[...] alguns pacientes, depois de estarem melancólicos, têm arroubos de mania [...], assim, a mania é como uma variação do estado melancólico”. Portanto, na Antiguidade, há indícios de que já se reconhecia a possibilidade de se alternarem estados melancólicos com maníacos (embora melancolia e mania naquele contexto não eram exatamente o mesmo que são hoje). Entretanto, foi apenas no século XIX que os alienistas passaram a reconhecer com mais clareza o que chamaram de loucura circular ou loucura maníaco-depressiva, o nosso atual transtorno bipolar (TB) (Goodwin; Jamison, 2010).

A principal característica do transtorno bipolar é a desregulação extrema do afeto ou estados de humor que oscila entre o extremamente baixo (depressão) ao extremamente alto (mania). Quando procura-se o termo “bipolar” no Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais (DSM-V) são encontradas 769 entradas (o livro conta com 992 páginas na versão digital), o que mostra como o transtorno é recorrente, tanto ele quanto ele em comorbidade com outros transtornos, e como os especialistas estão cada vez mais estudando-o e levando-o em conta.

A localização do transtorno bipolar no DSM-V diz muito sobre o transtorno em si. Ele fica entre os transtornos depressivos e os do espectro da esquizofrenia e outros transtornos psicóticos pois é considerado uma ponte entre os dois. Chamado no século XIX de transtorno maníaco-depressivo ou psicose afetiva, o transtorno bipolar tipo I é o entendimento moderno do descrito no clássico em tal época, a diferença é que não há exigência de psicose ou episódio depressivo maior. Entretanto, a grande maioria que experiencia mania, também passa por depressão maior. O transtorno bipolar tipo II não é mais considerado um tipo “mais leve” em comparação com o tipo I (ainda que devam ser episódios hipomaníacos e não maníacos).

Em termos de epidemiologia, em diferentes estudos, culturas e faixas etárias, os transtornos bipolar I e bipolar II afetam pelo menos 2% da população. Até a década de 1980, em torno de 12 a 15% dos indivíduos com TB terminavam suas vidas com o suicídio. Essas frequências, ao que parece, estão diminuindo para algo em torno de 5%, possivelmente associadas à melhor tratamento farmacológico e psicossocial dos pacientes. (Goodwin; Jamison, 2010). Mais de 90% dos indivíduos que tiveram um único episódio de mania têm episódios recorrentes de humor. Cerca de 60% dos episódios maníacos ocorrem imediatamente antes de um episódio depressivo maior. A idade média de início gira desde 18 a 21 anos. O transtorno também tem um grande caráter genético e hereditário, sendo este um dos fatores de risco mais fortes e consistentes. O risco de suicídio em pessoas com TB é 15 vezes maior do que o resto da população e ainda responde por um quarto de todos suicídios Qualquer transtorno disruptivo, TDAH, transtorno do controle de impulsos ou da conduta e qualquer transtorno por uso de substância ocorrem em mais da metade dos indivíduos com transtorno bipolar tipo I.


Sintomatologia
O transtorno basicamente ocorre com a mudança de humor, alternando entre humor maníaco e deprimido. Portanto, para cada fase existem sintomas diferentes. Quando a pessoa está em mania, que é considerada "um período distinto de humor anormal e persistentemente elevado" (DSM-V, p. 124), ela apresenta um aceleramento das funções psíquicas, euforia, grandiosidade, alegria exacerbada, redução da necessidade do sono (o que frequentemente anuncia o início de um episódio maníaco) e irritabilidade, em casos graves há alucinações. O quadro deve durar pelo menos uma semana, mas a média de duração do episódio maníaco é por volta de três meses (Goodwin; Jamison, 2010). Na hipomania a diferença é que os sintomas duram por quatro dias e eles não causam prejuízo funcional para o indivíduo. E então, existem os episódios depressivos: perda de interesse e prazer e humor deprimido são os principais sintomas.


Critérios Diagnósticos
Para o transtorno bipolar tipo I, o DSM-V especifica os seguintes sintomas para um episódio maníaco (com duração mínima de uma semana, presente na maior parte do dia): um episódio distinto de humor anormal e persistentemente elevado, e durante este episódio, autoestima inflada, redução da necessidade de sono, eloquência, fuga de ideias, distratibilidade, aumento da atividade dirigida a objetivos, envolvimento em atividades com potencial desastroso. Esses sintomas devem causar prejuízos sociais e/ou profissionais ou a ponto de necessitar hospitalização e não deve ser atribuível aos efeitos de uma substância ou doença. Pelo menos um episódio maníaco na vida é necessário para o diagnóstico de transtorno bipolar tipo I.

Já para o episódio hipomaníaco (que caracteriza o transtorno bipolar tipo II): Por pelo menos quatro dias, deve haver três ou mais sintomas bem demarcados de humor persistentemente elevado, irritado ou expansivo. Não pode haver sintomas psicóticos. Os sintomas devem mostrar uma mudança no indivíduo para quando está assintomático e deve ser visível aos outros e não é um episódio atribuível a uso de substâncias. Ainda, não deve acarretar problemas ao funcionamento social ou profissional do indivíduo (diferentemente do que acontece em episódios maníacos).

E, finalmente, o episódio depressivo maior (que deve ter duração de pelo menos duas semanas): humor deprimido, diminuição do interesse e prazer, perda ou ganho de peso/redução ou aumento de apetite, insônia ou hipersonia, agitação ou retardo psicomotor, perda de energia, sentimentos de inutilidade ou culpa, prejuízo na capacidade de pensar e se concentrar, pensamentos de morte e ideação suicida. Esse sintomas devem causar sofrimento e prejuízos sociais e profissionais e os sintomas não devem vir de uso de substância.


Sobre transtorno bipolar em crianças e adolescentes
De acordo com o vídeo "Crianças podem ter transtorno bipolar?" do canal NeuroSaber, sabe-se que acometendo de 0,8 a 1%, o TB gera prejuízos na evolução afetiva e no desenvolvimento das crianças. Em menores de 5 anos, os sintomas acabam sendo difíceis de perceber, porém o que se sobressai é o da irritabilidade. Uma criança que está bem num dia, agitada e no outro não quer falar com ninguém, está triste. Ela muda sua percepção afetiva. Hiperssexualidade precoce, mania de grandeza, comportamento opositor. Além do fator genético, a criança viver em um ambiente inóspito, difícil, com pouca afetividade é fator de risco.




Referências Bibliográficas:

DSM-V. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.5ª edição. Porto Alegre. Editora: Artmed, 2014. DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª Edição. Porto Alegre. Editora: Artmed, 2019.
BARLOW, David H. Manual Clínico dos Transtornos Psicológicos. 5ª Edição. Porto Alegre, Editora: Artmed, 2016.

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